De ‘termas’ em ‘termas’, Agualusa chega ao Fliaraxá

Jose Eduardo Agualusa - CEMIG - Ph Daniel Bianchini (3)José Eduardo Agualusa e o Fliaraxá são conhecidos de muito tempo. O escritor angolano participou da primeira edição do Festival, em 2012, quando o projeto ainda engatinhava pra crescer e se tornar um dos principais do gênero no país. De lá pra cá, Agualusa rodou o mundo, lançou mais livros e… parou num hotel termas em Portugal para participar, na semana passada, também de um evento literário.

“É uma coincidência extraordinária porque no mundo inteiro devem haver apenas dois festivais de literatura em hotéis de termas e eu saí de um para vir parar em outro”, brinca o autor de “Teoria do Esquecimento” (2012) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (2017), destacando que um dos diferencias do Fliaraxá é hoje ser realizado dentro de um hotel com estas características.
Entre um descanso e outro nas dependências no Grande Hotel Araxá, Agualusa terá uma agenda frenética durante o Festival. Esteve presente na abertura na quarta-feira. Na quinta, às 20h, participa da mesa “Democracia: Realidade e Ficção”, com Sérgio Abranches e Heloisa Starling. Na sexta (21), às 18h30, vai dividir suas experiências com Cristovão Tezza e o amigo Valter Hugo Mãe no debate “Ficção em África, Brasil e Portugal”. E no sábado (22), às 18h30, encontra-se com Conceição Evaristo e Leila Ferreira para discutir um tema que poderia ser título de um dos seus livros: “Escrever o Sentimento do Mundo”.
No vai e vem do Festival, José Eduardo Agualusa teve um tempinho pra conversar com o site sobre democracia, formação de público e, claro, literatura e imaginação. Leia a entrevista abaixo:
Você tem sonhado muito com a democracia? Como ela está no seu sonho. E como ela está quando você acorda?
Acho que há um recuo. A humanidade avança e neste avanço há pequenos recuos, sempre. Há refluxos de avanços. Estamos no momento de refluxo a nível global, quer dizer que houve um avanço grande de forças totalitárias, mas eu não creio que seja pra ficar. E acho que há avanços que foram conseguidos que já não há recuo para eles. Por exemplo, a questão da mulher, dos direitos dos homossexuais. Acho que embora existam forças conservadoras e arcaicas, não será possível recuar, já não iremos recuar. E também acho que é passageiro. No dia em que o Trump perder as eleições, e vai perder agora, muitos destes movimentos vão se esvaziar, não creio que tenham força real.
Como você avalia a evolução do Fliaraxá, já que esteve na primeira edição, há quase 10 anos?
É tudo diferente. Tem mais autores novos, é muito maior, o festival foi crescendo, virou uma tradição e está trazendo mais público. Nota-se que o público está mais sofisticado também. Estes festivais vão educando as pessoas. Muitas vezes, talvez, as pessoas não tinham o costume de ler, e elas começam a ler e a conhecer os autores e ter proximidade com eles. Então, há todo um movimento de sofisticação da própria sociedade, das próprias comunidades onde acontecem os festivais.
Qual o lugar da leitura no nosso imaginário? De que modo habitamos o mundo por intermédio da leitura?
Pra mim, ler são muitas coisas, mas sobretudo um exercício de alteridade, no sentido de que quando você lê um livro de ficção você está a se colocar-se no lugar do outro e, neste sentido, ler fortalece o nosso músculo da empatia e torna-nos mais empáticos, torna-nos mais próximos um do outro. Neste sentido, eu acredito que ler ficção melhora as pessoas.

Cortou a fita não tem volta: vem que começou o Fliaraxá

FliAraxaEntre tantos escritores e personalidades, o destaque do pontapé inicial da oitava edição do Fliaraxá foi a pequena Manuela Borges, de 9 anos. Foi ela a responsável por cortar a fita vermelha na noite desta quarta-feira (19) e abrir oficialmente o Festival. Claro que, na falta de trejeito com a tesoura, teve a ajuda de nada mais nada menos do que Valter Hugo Mãe, um dos mais prestigiados escritores da atualidade, e Danilo Santos de Miranda, o respeitado diretor do Sesc-SP.

Guiados pelo cortejo do Congado – Moçambique Verde e Branco de Araxá, o público foi conduzido para dentro deste pequeno mundo da literatura, da leitura e da imaginação em que se transformou as dependências externas do Tauá Grande Hotel. Do charmoso coreto, Afonso Borges, criador e curador do Festival, apresentou a estrutura que inclui área de gastronomia, bibliotecas, feirinhas, lojinha oficial, caminhão museu da UFMG e palco para shows e apresentações. Depois, todos os presentes foram convidados a entrar no auditório do Cine Tiradentes.

NOVA GERAÇÃO, DEMOCRACIA E O FLIARAXÁ
Manu, simbolicamente, representa a nova geração de leitores que o Fliaraxá tem consolidado ao longo de quase uma década. São jovens, crianças e adultos que hoje têm um pouco mais de acesso à leitura em Araxá e região por meio de iniciativas que o Festival promove nas escolas e pela gratuidade integral da sua programação.

O pilar de sustentação que permite que o Festival saia fortalecido a cada edição é o apoio, principalmente, da CBMM. O Gerente de Engenharia da empresa, Leornardo da Rocha e Silva, fez questão de estar presente na abertura. “O Fliaraxá contribui para a preparação de novas gerações, oxigenando novas perspectivas para a construção de um mundo melhor”, destacou.

Valter Hugo Mãe pegou na veia. Foi breve, mas objetivo: “A democracia acontece quando entregamos informação, instrução, educação a todas as pessoas de maneira que elas potencializem toda a sua capacidade. Isso se pode chamar de igualdade. Estes festivais representam isso, um exercício de democracia. Que este seja um encontro, um diálogo que conduza todos à paz”, desejou à plateia.

HOMENAGENS
Outro apoio importante vem da Prefeitura de Araxá. O representante do poder executivo local, Geraldo Lima Junior (Secretário de Desenvolvimento Econômico), também fez questão de comparecer ao local que para ele é “onde se aflora a cultura, a arte, o turismo e viés econômico da cidade”

A presidenta da Academia Araxaense de Letras, Cátia Lemos, fez uma homenagem à patrona local do Festival, a escritora Maria Santos Teixeira (in memorian).

E o deputado estadual Bosco, presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, entregou uma moção com votos de congratulação, aprovada pela Comissão, ao fundador do Fliaraxá. “A cidade agradece ao Festival, que trouxe cultura educação e impulsionou a economia local. Parabéns Afonso, parabéns a todos os envolvidos”, finalizou.